O jovem estudante em aceleração

Com a palavra, a jovem
Maria Eduarda Menegazzo Bonatto
Licenciada em Ciências Biológicas (UFRGS)

Se a informação chega cada vez mais rápido, por que aprender parece cada vez mais difícil?

Essa é uma pergunta recorrente no cotidiano educacional contemporâneo. Multiplicam-se os relatos de dificuldade de concentração, sensação de cansaço constante e falta de tempo para dar conta das tarefas escolares. No entanto, essas experiências, não podem ser explicadas apenas a partir do comportamento individual dos estudantes, mas compreendidas pelo contexto social mais amplo em que estão inseridos.

Vivemos em uma sociedade marcada pela intensificação dos estímulos, pela velocidade da circulação de informações e pela multiplicação de atividades que precisam ser realizadas em um mesmo intervalo de tempo. O sociólogo alemão Hartmut Rosa descreve esse fenômeno como “aceleração social”, característico da modernidade, no qual o avanço tecnológico não resulta em mais tempo disponível, mas amplia continuamente as demandas, expectativas e pressões sobre a vida dos jovens.

No ambiente escolar, essa aceleração se manifesta de forma bastante concreta. Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Reparo de DNA e Envelhecimento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulada “Avaliação da aceleração do ritmo de vida no contexto escolar”, contou com a participação de 574 estudantes do ensino médio. Os dados revelaram um uso excessivo de redes sociais: a média diária ultrapassa quatro horas e cerca de 73% dos adolescentes utilizam a internet como principal fonte de informação.

O uso intenso de dispositivos digitais não é uma realidade apenas no ambiente escolar. No Brasil, os smartphones tornaram-se praticamente universais: cerca de 88,9% da população com mais de 10 anos possui telefone celular de uso pessoal, e o tempo médio diário de conexão ultrapassa cinco horas, podendo chegar a mais de sete horas entre adolescentes. As redes sociais passam a ocupar um lugar central na relação dos jovens com a informação, moldando seus ritmos de atenção e aprendizagem.

A promessa de eficiência e o cotidiano em ritmo de urgência
Um dos paradoxos dessa aceleração reside na promessa de eficiência atribuída às tecnologias digitais. Embora elas facilitem o acesso rápido aos conteúdos, o que se observa, na prática, é o aumento da sensação de escassez de tempo. Mensagens, notificações e demandas se acumulam ao longo do dia, produzindo um cotidiano marcado pela urgência. Para muitos jovens, concentrar-se em uma única tarefa ou dedicar tempo ao aprofundamento passa a parecer improdutivo.

Mas seria possível aprender em 30 segundos?

Essa lógica afeta diretamente o aprender. Com a internalização de um ritmo acelerado de funcionamento, o próprio aprender é atravessado pela lógica da velocidade. Grande parte dos estudantes prefere consumir conteúdos rápidos, como vídeos curtos em TikTok ou Reels do Instagram, acreditando que a rapidez garante eficiência. No entanto, do ponto de vista das neurociências, aprender exige tempo para o processamento, organização e consolidação das informações. Quando a informação é consumida de forma fragmentada e acelerada, o processamento cognitivo tende a ser mais superficial.

Dados da pesquisa mostram que, embora a internet seja a principal fonte de busca, mais da metade dos estudantes afirma não aprender de forma satisfatória, e cerca de 70% lembram apenas parcialmente do conteúdo consumido.

Outro aspecto importante é o chamado “falso controle”: muitos jovens acreditam dominar o tempo gasto nas redes sociais, mas relatam frequentemente perder a noção das horas quando estão conectados. A sensação de autonomia, na verdade, revela-se como um automatismo. A aceleração se torna tão naturalizada, que seus efeitos geradores de ansiedade, pressa e dificuldade de concentração, passam a ser percebidos como características inevitáveis da vida contemporânea.

A juventude entre ansiedade e esperança
A aceleração também se reflete na forma como os jovens pensam o futuro. Mais da metade dos estudantes afirma sentirem-se “atrasados” em relação aos próprios projetos futuros, mesmo estando ainda no ensino médio. Trata-se do retrato do “jovem estudante em aceleração” que domina os meios digitais, mas não o tempo: sente-se pressionado, em constante atraso em relação ao que deveria ser ou ao que deveria alcançar. Prefere conteúdos curtos e imediatos, mas valoriza aulas dialogadas e dinâmicas. Vive o paradoxo de uma geração que percebe a influência das plataformas, mas não as reconhece como determinantes de suas emoções ou decisões.

Apesar disso, revelam um aspecto importante: a presença da esperança. Muitos estudantes projetam expectativas positivas sobre suas trajetórias. A juventude continua sendo marcada por projeções e possibilidades, movida pelo desejo de sentido. Como propõe Rosa, essa abertura para o que nos toca e transforma pode ser compreendida como uma possibilidade de reconexão com o mundo.

Com isso, a própria educação precisa repensar seus ritmos: muitas atividades, muitos conteúdos e pouco tempo para a experiência, o pensamento e o aprofundamento. Talvez o verdadeiro desafio não seja competir com a velocidade das redes, mas criar espaços de pausa, reflexão e profundidade. Afinal, aprender ainda exige algo que a cultura digital raramente oferece…:t e m p o.

Como seria aprender sem o ritmo das notificações, das curtidas, dos algoritmos e dos vídeos curtos? Como a escola poderia ajudar os jovens nesse percurso de aprendizagem com tempo qualitativo?

Fontes:
ROSA, Hartmut. A new theory of modernity: resonance, acceleration and social change. Cambridge: Polity Press, 2019.

CETIC.br. TIC Educação 2024: pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nas escolas brasileiras. São Paulo: CGI.br, 2025.

“Avaliação da aceleração do ritmo de vida no contexto escolar” - Trabalho de Conclusão de Maria Eduarda Menegazzo Bonatto. Pode ser consultado o resumo em: https://editora.pucrs.br/edipucrs/acessolivre/anais/simposio-juventudes-contemporaneas/assets/edicoes/2025/arquivos/34.pdf

 

Com a palavra, a especialista
Patrícia Espíndola de Lima Teixeira
Psicopedagoga, pós-doutoranda em Filosofia (PUCPR), Doutora e Mestre em Teologia com ênfase em antropologia fenomenológica e formação integral das jovens gerações (PUCRS)

Querida Maria Eduarda,

Para iniciar nosso diálogo, quero destacar o quanto é importante acolher tuas problematizações e identificar que as novas gerações estão investigando sobre o impacto da contemporaneidade nas suas aprendizagens. A educação necessita e merece essas perguntas profícuas para poder se reconhecer diante de tantas transformações. Como bem apontas, o ritmo acelerado do século XXI, intensificado pela digitalização da vida, vem produzindo profundas inquietações. Tua questão evidencia a insustentabilidade de uma saúde cognitiva (e integral) diante da fragmentação constante das informações.

O desenvolvimento da aprendizagem juvenil não se dá por acúmulo, mas por múltiplos processos cognitivos complexos que se consolidam à medida que cada pessoa constrói sentidos e significações sobre o mundo, sobre si, sobre os outros e sobre os ambientes internos e externos. Para a aprimoração da estrutura mental entre as novidades e aquilo que já é conhecido pelo jovem, há um mecanismo de regulagem da aprendizagem que chamamos na psicopedagogia de equilibração. O que tu apresentas convida justamente a pensar que, na desequilibração frenética dos dias, são os sintomas nas aprendizagens juvenis que denunciam a insustentabilidade de uma vida marcada por microcompartilhamentos, mediada pelo condicionamento operante dos algoritmos.

Nesse cenário, a instituição educacional exerce um papel fundamental. Antes de tudo, porque como ator social, também é atravessada por essas realidades: seja pela inclusão ou exclusão digital, seja pelos múltiplos fenômenos que adentram as salas de aula. Com isso, resgatar a identidade e missão educativa junto às comunidades acadêmicas, torna-se urgente. A tecnologia digital é bem-vinda enquanto funcionalidade, mas não deve impor a usabilidade e a temporalidade indiscriminada. A educação por meio tecnológico digital, deve servir à vida e ao pleno desenvolvimento humano e não ao contrário.

É preciso atenção nesse ponto: avanço digital não é sinônimo de progresso existencial. Quando o a tecnologia não se entrelaça com a formação ética, interior e relacional, aquilo que poderia ser um recurso valoroso pode tornar-se uma ameaça. Por isso, a escola e a universidade, não podem estar sozinhas em seus papéis. Por isso, as regulamentações, as mobilizações multidisciplinares em favor da aprendizagem, da saúde integral e da segurança juvenil são tão necessárias.

Outro ponto que destacas é o tempo. Aquilo que já era visto como “artigo de luxo” na vida adulta tornou-se escasso desde a infância, atravessando a juventude. Harmut Rosa, autor que citas, nos ajuda com a imagem do hamster que corre incessantemente na roda da gaiola para ficar no mesmo lugar. Infelizmente, muitos jovens experimentam hoje a paralisia adoecedora ocasionada pela urgência de responder tudo, em todo lugar, a todo momento. Corre-se, assim, o risco de perder o sabor da vida e do conhecimento. E não é que a palavra sabor é a raiz etimológica da palavra sabedoria? Não há espaço para a sabedoria quando se vive como um consumidor de estímulos. Perde-se as significações, a capacidade de atenção e a própria memória. Apresentaste muito bem para nós, os efeitos cognitivos e simbólicos dessas perdas.

Por fim, os ritmos saudáveis de aprendizagem precisam ser redescobertos. Profissionais da educação, da saúde e da assistência, vêm insistindo na necessidade de mediação crítica, de tempo para experimentação, para a vivência relacional com qualidade, para reencontro da concretude, da palavra e da historicidade. Isso implica em desconstruir os excessos e retornar ao essencial (a começar por nós): boas leituras, apreciação da arte, desenvolvimento sistematizado, lógico e de criticidade, a redescoberta da corporeidade na aprendizagem, o contato com a vida natural, a relação solidária, o cultivo do espírito cooperativo e criativo. Não se trata de excluir a tecnologia digital, mas de colocá-la em seu devido lugar e não no centro. Se aprender significa não estar preso em si, jamais deveria significar tornar-se prisioneiro de reações automatizadas. Criar espaços de pausa, da boa e velha conversa, do humor compartilhado e de sabor pelo conhecimento, é o caminho mais seguro. Desafiador, sem dúvida, mas certamente mais ressonante. Vamos juntas? Adorei dialogar contigo! Obrigada por me fazer pensar ainda mais profundamente.