É comum que, ao olharmos para o passado sejamos tomados por um saudosismo por tempos que passaram, onde tudo parecia mais simples, onde a história já foi contada e já sabemos o que se passa nas últimas páginas. Afinal, somos a geração mais ansiosa, segundo alguns pesquisadores, e não seria essa nostalgia do passado apenas a ansiedade de uma história que não conhecemos o final? A ansiedade de trilhar os próprios caminhos sem um guia? Por toda a nossa vida, podemos nos inserir em fatos passados, agora como observadores, e emitir opiniões que são confortáveis aos nossos sentidos, assumindo que saberíamos qual o lado certo, qual a decisão correta a se tomar. Agora, é a nossa vez de viver sem um mapa, criando nossos caminhos em um campo aberto de possibilidades.
Claramente, podemos dizer que não somos os únicos jovens a lidar com situações além do nosso controle, uma pesquisa rápida nos mostra que jovens viveram a Gripe Espanhola, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, Crises Financeiras Globais, tudo em um período de um século. Entretanto, a informação, e seu acesso, mudaram drasticamente com o tempo, onde antes juventudes eram adultas antes de obterem informações completas sobre grandes acontecimentos, os jovens de hoje levam minutos para se atualizar com um mundo de informações de alcance global. O que se reflete em decisões a serem tomadas hoje, opiniões firmes para amanhã e atitudes consistentes na semana que vem. O desenvolvimento dos jovens se tornou reconhecível em apenas um século.
Dessa forma, precisamos nos perguntar: o que acontece então, com os jovens que possuem suas juventudes interrompidas por conflitos reais? Não do tipo virtual, que se acompanha em tempo real de forma online, mas aquele que ocorre na sua cidade, no seu dia a dia? Estima-se que, pela primeira vez, desde que esses dados começaram a ser registrados, números nunca observados estão surgindo nas pesquisas, mostrando nuances devastadoras dos impactos em jovens vivendo em zonas de conflito, ou que tenham sido forçados a deslocar-se nacional ou internacionalmente devido à violência. Milhares de jovens ao redor do mundo têm seus direitos e necessidades fundamentais violados diariamente, seja com violência direta ou indireta, impossibilidade de continuar uma vida escolar básica ou questões de saúde — como privação de vacinas vitais e subnutrição severa — que estão previstas para aumentar nos anos seguintes. Esses conflitos que se espalham e crescem internacionalmente, são responsáveis por cerca de 80% das necessidades humanitárias globais, afetando o acesso a bens essenciais que podem ser escassos por questões de desenvolvimento. Atualmente, — segundo o canal de notícias da UNICEF de Portugal, postado em 2024 — mais de 473 milhões de crianças, uma em cada seis, vivem em zonas direta ou indiretamente afetadas por conflitos ou guerras. Não por acaso, há um número maior de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial; assim, a percentagem de crianças nessas zonas duplicou nos últimos quarenta anos — saindo de cerca de 10% na década de 1990 para alcançar os 19% nos dias de hoje. Os dados apontam que, ao fim de 2023, 47,2 milhões de crianças foram deslocadas nacional e internacionalmente em casos de conflitos e violência, isso, é claro, se não se tornam vítimas das fatalidades dos conflitos.
O trauma é generacional, permeando diversas juventudes nos últimos cem anos, logo, por que o sentimento de "Somos a geração salvadora, que lida com os erros do passado como as consequências do amanhã" e "Logo na minha vez de viver, eu vivo momentos históricos seguidos por momentos históricos?" cresce cada vez mais entre os jovens? Diante de tudo isso, o sentimento de que "é sempre a nossa geração que carrega o peso do mundo" é uma distorção da percepção jovem, ou existe algo de inédito na forma como essa geração processa o que está vivendo?
O sentimento de “carregar o peso do mundo” é uma distorção da percepção juvenil, ou existe algo de inédito na forma como essa geração processa o que está vivendo? É essa a pergunta importantíssima e provocadora que nos faz a Alicia, ao refletir sobre como é vivenciar um momento histórico tão permeado por conflitos e desafios humanitários.
Primeiramente, é importante refletirmos um pouco sobre o conceito de “geração”. Um dos autores que mais se dedicou a esse tema foi o sociólogo Karl Mannheim, que entendia a juventude como um dos momentos mais cruciais do curso da vida e que a geração se define pelo fato de que indivíduos compartilharam em suas juventudes situações comuns no processo histórico e social.
Sendo assim, mais importante do que compartilhar uma faixa etária, pertencer a uma geração significa compartilhar fatos históricos e conjunturas sociais. A geração que vivencia a juventude hoje é atravessada por um cenário de múltiplos conflitos sociais, de um fluxo contínuo de informações disparadas em uma velocidade muito maior do que a nossa capacidade de consumo e assimilação, além de terem vivenciado outros elementos que escacaram a vulnerabilidade humana, como a pandemia do novo coronavírus e o surgimento de tecnologias que desafiam a nossa capacidade de distinguir o que é real do que é inventado. Essas experiências compartilhadas ajudam a “moldar” a forma como os jovens de hoje vivenciam suas vidas e interpretam o mundo à sua volta.
Mannheim também destacava que a centralidade da juventude no ciclo de vida estava justamente no fato que, diferente dos adultos que assimilavam esses mesmos fatos históricos a partir de padrões já sedimentados no seu processo reflexivo, os jovens estariam menos enredados na ordem social vigente, possuindo mais capacidade de “estranhar” o mundo e de analisá-lo a partir de novas concepções e ideias. Por essa razão, ele considerava a juventude como um “agente revitalizador”, capaz de produzir mudanças e renovar a sociedade.
O sentimento destacado pela Alicia de ter que “construir o próprio caminho sem um guia”, encontraria em Mannheim uma leitura pelo viés positivo: a ausência do “guia” seria justamente o que proporcionaria à juventude uma leitura nova do mundo, permitindo espaços para mudanças sociais. É preciso, contudo, não invisibilizar o aspecto negativo desse sentimento: sociólogos mais contemporâneos como Carmem Leccardi, Alberto Melucci e José Machado Pais apontam como o cenário de incertezas combinado com uma leitura pessimista sobre o futuro pode processos de ansiedade ou, por outro lado, excesso de presentificação, levando os jovens a pensar apenas no aqui e agora como forma de evitar reflexões dolorosas sobre um futuro incerto, desafiando ainda mais a construção de projetos de vida.
Por fim, podemos dizer que as proposições existentes na nossa pergunta geradora são menos antagônicas, e mais complementares: todas as gerações foram, de alguma forma, afetadas pela noção de “geração salvadora”, carregando o peso da conjuntura que vivenciaram. Contudo, também é certo afirmar que existe um “ineditismo” na maneira como essa geração percebe o mundo, em decorrência das experiências que compartilham e da forma como lidamos com o passado, presente e futuro nesse momento da história.
Fontes:
LECCARDI, Carmen. Por um novo significado do futuro: mudança social, jovens e tempo. Tempo Social, São Paulo, v. 17, n. n. 2, p. 35–57, 2005.
MANNHEIM, Karl. O problema sociológico das gerações. In: FORACCHI, Marialice. Karl Manheim: Sociologia. São Paulo: Ática, 1982. p. 67–95.
MELUCCI, Alberto. Juventude, tempo e movimentos sociais. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 3–14, 1996.
PAIS, José Machado. A esperança em gerações de futuro sombrio. Estudos Avançados, São Paulo, v. 26, n. 75, p. 267–280, 2012
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